Sonho de menino inesperadamente realizado aos 52 anos de idade

Com fotos dos Irmãos Bomediano, Garrido e Dummar

Para os de minha geração, não há como esquecer a voz empostada de Heron Domingues ao anunciar: "Aqui fala o Repórrrrterrr Esso, testemunha ocularrrr da história"! Ainda que a comparação possa vir a ofender os brios dos fãs daquele maravilhoso jornal de televisão, sua audiência, guardadas as proporções populacionais, comparava-se com grande chance de superá-la, à do atual Jornal Nacional.

Mas, porquê, agora, em um fórum de pesca, venho falar nestas saudosas épocas e de um jornal que nem existe mais? Simplesmente porque foi na voz do Grande Heron Domingues, no afamado jornal, que em tenra idade ouvi pela primeira vez algo relacionado ao Xingu e seus heróis, índios e brancos, dentre estes, os lendários Irmãos Villas Bôas.

Assim, vez ou outra vinham notícias daquela região, notícias estas, que me acariciavam os ouvidos, de maneira a parecer que algo mágico havia no Xingu que me causava tanta ilusão, a ponto de não raro, menino sonhador, ousar imaginar-me um dia, pisando o sagrado chão xinguano, de preferência numa aldeia indígena.

Com o tempo, ao entrar na adolescência e estando em melhor condição para compreender aquilo tudo, descobri que a saga dos afamados irmãos começou em 1943, quando souberam que o governo estava montando uma expedição com o fim de desbravar parte da enorme área ainda não mapeada do Brasil Central, implantando núcleos populacionais durante sua passagem.

Tal expedição foi denominada de Expedição Roncador-Xingu, partindo de Barra do Garças, que foi sua primeira base. Uma vez nela engajados, deram início à própria saga, os formidáveis Irmãos Villas Boas, não sem agregar ao grupo, algumas pessoas, muito embora anônimas como eles próprios, das mais distintas e corajosas de nosso país.

E foi assim que estes três irmãos conseguiram gravar de maneira indelével seu nome na parte boa, louvável, da história de nosso País. Foram adeptos da idéia de que, diante da necessidade de se interferir na vida de seres tão especiais como os índios, deveriam fazê-lo com o máximo cuidado e respeito, de maneira que durante as expedições, a ordem era para que nenhum tiro fosse dado, ainda que sob ataque. E isso foi muito bem conduzido por Orlando. Se por um lado os índios brasileiros sofreram com a chegada do branco, por outro lado, este sofrimento foi muito menor do que poderia ter sido se a campanha não estivesse sob o comando de gente tão especial quanto os Villas Bôas.

Foi então, a partir da idéia destes homens, que foi criado o Parque Nacional Indígena do Xingu, em 1961 (eu estava à época com 6 anos de idade), cujo nome atual é Parque Indígena do Xingu, com área aproximada de 2.800.000 ha, onde ficaram preservadas catorze etnias indígenas englobando cerca de 5.500 índios.

Portanto, quando comecei a acompanhar o assunto, o Parque já estava implantado, mas nem por isso deixei de sentir-me presente ao ler entrevistas e relatos de Orlando e Cláudio em jornais e programas de televisão, relatando os acontecimentos e percalços pelos quais tiveram de passar desde os primeiros passos da expedição até a conclusão da idéia de criação do Parque.

Sabedor de que muito difícil seria conhecer pessoalmente a uma aldeia indígena do Xingu em sua essência (não me interessava uma visita turística, isso, não!), acabei conformado, mas não esperava que um dia o destino me colocasse diante de um especial amigo que viria isso me proporcionar.

Ano passado estivemos pescando no rio Xingu, hospedados no Rancho Xingu, sob a impecável direção de nosso amigo Atá. Durante minha estadia por lá, soube que houve uma expedição de alguns pescadores até a aldeia Kuikuro, mas não me atrevi a demonstrar interesse vez que sabia que isso poderia ser complicado e poderia estar trazendo alguma dificuldade para Atá.

Diante desta minha observação em um relato aqui nos fóruns de pesca, Atá me disse que se eu tivesse comentado com ele, teria conhecido a aldeia naquele mesmo dia. Mais que isso, espontânea e diligentemente, comprometeu-se a levar-me à aldeia, o que muito me impressionou.

E não é que o danado fez mesmo isso? Há uns seis meses avisou-me desta nossa viagem para o Rancho Xingu e que se eu fosse seria quando me faria chegar à aldeia. Achando que isso poderia ser un tanto trabalhoso agradeci a oferta, dizendo para que ele não se preocupasse com isso, mas abnegado que é, não deixou-me opção: "Bomediano, você vai à aldeia Kuikuro!"

Com isso, partimos para uma viagem de uma semana, que envolvia pesca, mas que para este servidor, foi mesmo de aperfeiçoamento espiritual.

O rio Xingu e seus formadores têm um aspecto único, com mata ciliar muito bonita e impressionante. As margens são, ora guardadas por matas de transição e de galeria, ora guardadas por belíssima vegetação de cerrado. São rios que proporcionam pescarias memoráveis, sempre prazerosas e não decepciona aos que suas águas navegam. No Xingu, a vida explode! Uma hora, oferece um peixe, outra hora, oferece curiosas imagens de animais. Quando não se vislumbra nada mais de especial, vem aos nossos sentidos suave e distinto perfume de flores e se as vemos somos agraciados com um show de cores. E se não vem um determinado perfume, outro comparece; e se estes se ausentam, vêm imagens de grandes e maravilhosos jatobás e cambarás. Se estes não comparecem, cuida a Diligente Mãe Natureza Xinguana de criar algum fato novo, sempre distinto, fazendo passar à nossa frente, algumas araras ou outras aves. Ah, mas que lugar especial!

Eis porque não há monotonia naquelas paragens:

A gratificante imagem de um jatobáHymanaea stilbocarpa. Pela manhã o rio se cobre de neblina por conta do frio que faz, mas algumas horas depois, o calor já é de matar!
A fauna é de espetáculo. Aqui, un lagarto sinimbu ou iguana – Iguana iguana. Um macaco-prego em um jatobá
Jacarés não faltam Umas paisagens mais do rio Kuluene, Sete de Setembro e Xingu
   
Na pescaria, sacamos todos, muitos peixes: tucunarés, bicudas, cachorras cacharas, jurupenséns, jurupocas, corvinas, matrinxãs, piranhas e outros mais. Mario, meu irmão, teve sua isca enroscada em um grande poraquê, de maneira que retiramos o anzol com muito cuidado.

Creio que com estas fotos conseguirei expressar melhor o que passamos:

Tucuna
Jurupoca
Tremenda corvina do Garrido André não desaponta e "passa o recibo" no pai
Cachara do Mario Corvina
Matrinxã Xincha e Xinthia, com um belíssimo cachara
Outra matrinxã Tucuna
Cachorra Roberta y Pequi
Nosso guia Pedro O poraquê, ou peixe elétrico, que Mario fisgou
Mais de perto Roberta com matrinxã
Um tracajá, que foi fisgado em isca natural De perto
 
E foi durante a pescaria na tarde da segunda-feira que vimos aproximar-se de nós um barco trazendo D. Zuleika, esposa de Atá. Pela especial pessoa que é, somente sua presença já nos trazia um gosto, mas ela ainda portava a notícia de que no dia seguinte iríamos à aldeia! O coração levou um impacto, de maneira que andou batendo irregularmente a ponto de fazer-se sentir alguma arritmia. E foi assim que recebi aquela notícia! E foi também com olhos encharcados que agradeci, percebendo que a hora se aproximava... Ô caipira danado de besta! Desgramado de coração mole! A única coisa que não estava perfeita é que o Grande Atá não nos acompanharia. Quem me levaria até lá seria o Grande Oscar, não menos diligente que o primeiro!

A noite foi das mais longas que passei em minha vida! Maldição de relógio que insistia em demorar mais que o normal para fazer a contagem do tempo. Mas inexorável, o tempo passa e, ainda que a noite possa ter parecido uma eternidade, chegara a hora!

Partimos bem cedo para tentar ver alguns animais nas vastas pastagens naturais das terras xinguanas. Uma coisa que muito me impressionou foi saber que nosso amigo Atá preferiu deixar suas terras da mesma maneira que sempre estiveram, ou seja, estão preservadas. Desta maneira, dentro da área podem ser avistadas grandes planícies com pastagens naturais, de vários tons de cores, áreas de cerrado denso e de matas de transição, com imensos buritizais nas áreas alagadas. Um ecosistema perfeitamente integrado.

No caminho uma majestosa concentração de buritis (Mauritia vinifera)
 
Ainda que a foto não lhe faça justiça, não resisti em fotografar esta planta bastante rara. Por certo o Grande Pepe vem com uma que a substitua sem dificuldades, pois para garantir pedi a ele que também a registrasse.
Vimos também alguns animais como estes
Chegamos à primeira aldeia, chamada Paraíso e que está ainda em implantação, cujas características diferem um pouco das originais, mas se por um lado estas características interferissem na imagem das casas, por outro lado, nada retirava das pessoas suas características índias, de maneira que ao chegarmos já se podia notar ali, a hospitalidade dos índios. Confesso que neste momento senti algo de desapontamento, pois a imagem além de não corresponder à esperada, não era também agradável. Longe de assemelhar-se a uma aldeia indígena, parecia mais um assentamento de pessoas sem-terra, muito dosorganizada e pobre. Mas para compensar, as especiais pessoas que ali vivem contribuiram sobremaneira para afastar de vez esta primeira má impressão.

Os índios se aproximam
Mario com Ausuki, um índio bastante atencioso, com o qual já havíamos conversado na pousada. Uma indiazinha muito bonita com nome de branca: Mariana.
Não me recordo bem, mas creio que esta é irmã de Mariana Importando-me menos com fotografias e centrando-me mais na obtenção de conhecimento, indaguei sobre alguns costumes e perguntei se tinham milho índio para que me arrumassem algumas sementes. Prontamente, uma índia, Kahalá, correu buscar uma espiga oferecendo-me com viva alegria nos olhos. Aproveitei então, para saber mais sobre ela. Casada com Nahum, terceiro cacique da aldeia em implantação, vive ali com sua irmã, Anaí e são filhas do Cacique Yacalo, da Aldeia Kuikuro, que iríamos visitar.

As índias Anaí e Kahalá, filhas de Yacalo, cacique da aldeia Kuikuro
Pediu-me Kahalá que portasse um recado a seu pai, dizendo que estava tudo bem com ela e a irmã.

A estrada apresentava trechos, que embora acidentados como este, não ofereceram maiores entraves que o devido cuidado na passagem
Partindo da aldeia Paraíso, após mais uma hora de viagem chegamos à Aldeia Kuikuro. Logo ao entrar na pista de pouso, este incomparável amigo, Oscar me avisava para preparar o coração pela imagem que iria ver. Ah, mas já era tarde! O desgramado do coração já batia todo errado de novo! A fala recusava a sair e quando saía, falseava! E foi com tremedeira que adentrei a aldeia, sem nenhuma vergonha de sentir lágrimas brotarem dos olhos. Afinal, aquele menino, agora com 52 anos de idade, realizara seu sonho! E foi com um abraço que agradeci a Oscar, pois ele, conjuntamente com Atá, é que me proporcionaram aquilo tudo!

Índios apareciam de todos os lados, sempre com o corpo muito bem decorado com tinta extraída de urucum e jenipapo, com um colorido excepcional. Primeiro precisei passar por um período de adaptação e assimilação da enorme quantidade de informação visual que meu cérebro tinha de processar, o que levou alguns minutos. Crianças "brotaram" de todos os sítios! Que rostinhos lindos tinham!

As ocas são enormes!
O engenhoso sistema de construção é surpreendente! Não usam nada do homem branco, senão apenas amarrações nas madeiras. Logo em seguida, vimo-nos seguindo Yacalo que nos ciceroneava pela aldeia fornecendo informações genéricas. Levou-nos a uma casa de alvenaria – a única da aldeia – que servirá de sede para uma ONG que estão criando eles próprios. Ali, fez-nos uma interessante palestra audio-visual, que muito ajudou a compreender a situação dos Kuikuros no momento. Aproveitei para conversar mais detalhadamente com os dois índios professores da aldeia, recebendo com muito gosto a notícia que, apesar de levar ensinamentos como matemática e língua portuguêsa aos indiozinhos, levam também a cultura ancestral, com ensinamentos da lingua Kuikuro transcrita para a grafia que conhecemos e das tradições da aldeia.

Depois disso, ficamos livres para andar pela aldeia, mas novamente centrando minha presença em obter informações, passei a conversar com Yacalo, cuidando, primeiro de desfazer-me do recado que portava. Agradeceu-me pela informação e convidou-nos a adentrar sua oca. Recebeu-nos em sua casa, como se estivéssemos em nossas próprias!

Enquanto os demais saíram para ver a festa, permaneci sentado, conversando com o impressionante cacique por umas duas horas seguidas, quando aproveitei para retirar todas as informações possíveis sobre a vida índia. Uma coisa maravilhosa! Yacalo, ao contrário da impressão que as fotos possam causar é um homem de inigualável simpatia e educação. Em verdade, o que pude perceber é que os índios são gente especialíssima, sem par! Quisera eu ter a metade de presença de espírito que tem um índio!

Esta índia assistia, curiosa, nossa conversa
Sempre guardarei esta especial foto como recordação pela alegria com que nos conhecemos Yacalo e eu.
Com a chegada de mais alguns companheiros que andaram fotografando a dança, almoçamos peixe e beiju. Ainda que esta refeição fuja totalmente dos padrões de nossa alimentação usual, comida é coisa sagrada e não pode ser recusada, de maneira que fartamo-nos, principalmente de beiju, que é algo simplesmente delicioso. E com este almoço, senti-me um pouquinho índio!

Agahuvuru, uma das duas mulheres de Yacalo, mãe de Kahala (da Aldeia Paraíso), preparando a tapioca.
Ao mesmo tempo, Arifuá, a segunda mulher de Yacalo, preparava peixes para nosso almoço A seguir, algumas fotos dos índios durante a festa:

Esta linda indiazinha surpreendeu-me olhando fixamente para a câmera, de maneira a render-me uma das melhores fotos

Yacalo mostrando uma foto onde se pode ver seu falecido pai e a sua mulher, Agahuvuru, ainda jovem. Vejam o colar que leva ao pescoço, feito de unhas de onças. Este colar é de uso restrito do Cacique!

Como tudo que é bom dura pouco, chegou a hora da partida, mas como se não bastase tudo o que aqui relatei, este dia ainda me reservava um mágico momento mais!

Na volta, quando paramos novamente na Aldeia Paraíso, novamente os índios juntaram-se a nós e dentre todos, ouvi chamarem meu nome! Tratava-se Kahalá, filha de Yacalo de quem portei a mensagem para o pai. Vinha acompanhada da irmã Anaí e do marido, Nahum. Disse-lhe que havia passado seu recado para Yacalo e que dela ele falou que gosta muito! Com um belíssimo sorriso pediu-me para aguardar, saindo às pressas para buscar algo em sua casa. E com o mesmo sorriso, retornou trazendo-me uma esteira de presente! Ainda que tentasse disfarçar, este danado deste coração andou falhando novamente e foi os olhos rasos d'água que lhe agradeci dizendo que nada tinha naquele momento para retribuir, mas perguntei se poderia dar-lhe um abraço e um beijo, sem sequer pensar se isso poderia vir a ser um problema, afinal de contas eu não conhecia aquela gente, de maneira que com isso, arrisquei-me a arrumar uma bruta encrenca. Mas que coisa mais bela é o espírito humano, que nos permite reconhecer manifestações sinceras de emoção, não importando muito se somos índios, brancos, pobres, ricos, reis, religiosos, escritores, etc., pois ela... aceitou! E ao dar-lhe um abraço e um beijo fui retribuído, além de receber também um abraço do marido! Aquilo foi simplesmente sensacional! Até agora me emociono ao escrever!

Saí de lá convito de que os índios são as pessoas mais estupendas que me proporcionou Deus a chance de conhecer. Já sinto saudades daquela gente tão especial! Deus meu! Pudera eu ter uma pontinha de conhecimento que têm eles sobre a vida e o espírito humano e meu coração estaria mil vezes mais feliz!

Bem, este dia foi um dos melhores de minha vida! Agora posso dizer que entre os índios tenho alguns novos amigos, muito, muito especiais. Ficamos acertados de nos encontrarmos quando virem para São Paulo em 2008.


Depois deste dia seguimos pescando por mais três dias, mas então, nada mais poderia superar a overdose de emoção que me proporcionou a visita aos índios! Creio que posso dizer o mesmo em nome de meu fantástico irmão Mario, cujo coração também andou "falhando" na aldeia!

No sábado de manhã prestei minha homenagem aos rios xinguanos fazendo uma oração na barranca do Kuluene, no Rancho Xingu, pedindo a Deus para preservar aquilo tudo e sua gente maravilhosa. Colhi mais um pouquinho de terra para minha coleção e despedi-me do lugar.

Bom, amigos, agradeço a todos que tiveram paciência de ler até aqui.

A todos do grupo que me acompanharam na viagem, meus sinceros agradecimentos, sem deixar de dizer que a mim me encantaram pela tremenda capacidade de boníssima convivência pela qual passamos. Agradeço também pela cessão de algumas fotos que me autorizaram ao uso para compor este modesto relato.

Por mais que escreva não conseguirei fazer justiça a um merecimento. No entanto, tentarei! Devo então, muito, mas muito mesmo, agradecer a este homem:

Atahualpa Catalán, o Grande Atá, por tudo que se empenhou para fazer com que minha visita aos índios se transformasse de um simples sonho de um menino em uma verdadeira aventura de um pescador cinquentão!

Muito Grato, Grande Atá, amigo meu! Que Deus abençoe a você, sua família e à sua estupenda pousada.

Muito grato também, ao Grande Oscar, que foi o "encarregado" de nos levar, a mim e meu irmão, até aquele paraíso e que soube muito bem assimilar o que se passava em meu peito naquele dia.

Valeu, Grande Oscar!

Domingos Bomediano (Bome)