RANCHO XINGU: COM CANTORIAS POR TODOS OS LADOS
Ezequiel Theodoro da Silva

A caravana de pescadores de Porto Velho, comandada por Ivaldo Viana, pratica, a um tempo, a pescaria e a cantoria. Gostam de fazer cantar as linhas na água e as cordas vocálicas nas noitadas no rancho. Às tralhas de pesca se juntam violão, atabaque, afuxê, reco-reco e pandeiro, fazendo valer a idéia de que um grupo de pescadores pode também ser sinônimo de uma orquestra bem afinada numa aventura de pesca. E os roncos dos motores de popa complementam as gostosas músicas na beira do rio!

Juntamente com um grupo de pescadores de Rio do Sul (SC), na maioria descendentes de alemães, seguimos para o Rancho Xingu no período de 15 a 23 de outubro de 2005. Uma boa mescla, vale dizer, colocando junto, dentro de um mesmo cenário, gente de dois extremos do país, ligados certamente por costumes, manias e formas de ser de nós brasileiros. E eu próprio me testaria como acompanhante-coordenador da caravana - isto porque se tratava da primeira viagem do Turismo Pescarte, cujo planejamento levou quase 12 meses de preparação e encaminhamentos.

DOIS PRIMEIROS DIAS: SECURA QUASE TOTAL...

Diz um princípio básico de pesca que os modos de encontrar os peixes varia de lugar para lugar; e enquanto a gente não aprender esse modo específico, iremos apenas dar banho na minhoca ou então fazer um teste infindável da nossa paciência.

O fato é que nos dois dias iniciais de pescaria o rostos do pessoal voltavam cabisbaixos, numa demonstração viva de frustração ou mesmo de arrependimento pela escolha do lugar. Aos meus ouvidos chegaram irritações do tipo "Nesse rio não tem nada!", "Quem mandou a gente vir para um lugar tão longe?", "Venderam gato por lebre pra gente!", "Tentei quase a minha caixa inteira de iscas e não consegui nenhuma filha-da-mãe de puxada", etc.

E a tristeza virava tema da cantoria nas noitadas sob a luz do luar refletido nas águas frente ao rancho. Saiu até a famosa "Risque.. meu nome do teu caderno...", entendida num outro contexto, qual seja de que o nome seria riscado nas futuras listas para pescarias no Rancho Xingu. Mas a melancolia não demoraria muito...

PONTO CERTO, ISCA CERTA, PEIXES MORDENDO

Diferentemente de Jesus Cristo, que produziu o milagre da multiplicação dos peixes, uma pescaria exige sempre aprendizagem constante e rápida, coroada por competências e habilidades dos pescadores. Não é que aprenderam?

Do terceiro dia em diante foi um vendaval de fisgadas, perdas de linha, peixes pousando para as fotografias, causos sendo contados durante as refeições, pesos sendo esticados, numa revelação concreta de que os mapas dos peixes e os modos de pescar eram bem diferentes dos experimentados inicialmente.

De minha parte, na curva preferida do Kuluene, perdi um puxão com uma linha 70 mm. Deixei o bicho meter a tuvira na boca, andar e correr com a linha rio abaixo, fisguei e comecei a batalha. O peixe, que imaginei ser uma pirarara, foi para o fundo e talvez tenha encontrado um toco solidário no qual se enrolou. O fato é que a linha deu um estalo, voou para cima, cantou em menor e me deixou com a vara balançando no ar. Um peixão - tão grande que assombrou meu sono nas noites posteriores no rancho.

SOBREPESCA E MUITO DESRESPEITO

Essa foi a terceira viagem que fiz à barra do Xingu, sempre no Rancho Xingu, às margens do Rio Kuluene. Não há como negar que a pesca predatória, praticada principalmente por pescadores das pousadas subjacentes, está matando o potencial turístico de pesca na região.

O Rio 7 de Setembro, anteriormente muito piscoso e com boas matrinchãs, não apresentou quase nenhuma corrida de peixes durante as várias descidas de arremessos nas suas duas margens. Apenas as piranhas atacaram as nossas papa-blacks.

Ainda que a época não fosse a mais adequada, os grandalhões de couro, como a cachara, a pirarara, o jaú, o filhote, etc, também deram pouco as suas caras. A grande maioria de pequeno porte, sem possibilitar a sensação das emocionantes brigas.

UM CANIL DE CACHORRAS



As grandes artistas desta caravana foram as cachorras, com seus dentões passando pelo nariz e atacando ferozmente as iscas naturais e artificiais. Os seus pontos preferidos eram as partes mais profundas da junção do Kuluene com o 7 de Setembro, exatamente nos locais de mescla das águas claras com as escuras.

Duvido que exista no Brasil um lugar mais produtivo para a pesca da cachorra. Nas adjacências da barra do Xingu elas nadam aos bandos e atacam ferozmente as iscas oferecidas. E a briga com esses peixes, com peso entre 8 a 13 quilos, é adrenalina pura em função dos seus saltos e cabeceios.

E a surpresa ficou por conta de um "churrasco de cachorra", uma iguaria sem igual do Rancho Xingu, inclusive tapando a boca daqueles pescadores que acham que a carne desse peixe tem muito espinho e não é muito saborosa. Cabe dizer que os índios da região assam cachorras nas suas refeições e muitas tribos preferem essa espécie a quaisquer outros tipos de peixes, incluindo os lisos ou de couro.

QUEM CANTA OS SEUS MALES ESPANTA

Foram extremamente positivos os resultados dessa caravana, a primeira organizada pelo Turismo Pescarte - fartura de peixes, cantorias, novas amizades e, o mais importante, uma comunhão extrema de amizade e solidariedade entre os pescadores.

Como acompanhante e coordenador, confesso que essa pescaria foi motivo de muitas aprendizagens para mim, principalmente aquela de redobrar o cuidado quando as providências têm que ser tomadas por outros que não você próprio. E mais: saber que devemos passar a lista de tarefas várias vezes até que as mesmas sejam completamente entendidas pelos responsáveis do apoio e da infra-estrutura.