XINGU:
A CERTEZA DE TROFÉUS E RECORDES
KDU MAGALHÃES
Revisão e edição: Ezequiel Theodoro da Silva

O dia tinha sido perfeito. O mar estava calmo, a água clara e quente.
Tínhamos apanhado e liberado dois sailfishes, além de um pequeno
marlin de uns 150 quilos. Os dois motores ronronavam suavemente do alto da suas
potências de 250 cavalos cada. Um total de 500 HP à nossa disposição,
na ponta dos dedos. O marinheiro, todo de branco, servia gin tônicas com
canapés, e os meus clientes, após terem tomado banho e trocado
de roupa, se preparavam para tirar uma soneca bem merecida. Afinal, estávamos
embarcados desde as 6 horas da manhã e, agora, o relógio marcava
17 horas em ponto. A viagem de volta deveria durar mais umas duas horas, pois
estávamos bem afastados de terra. Lá pelas tantas, um deles, que
saía conosco pela primeira vez, sorriu e falou:
Eu, que no momento estava mais preocupado com o atraso do lançamento da minha nova página www.fishing-in-rio.com, já começava a esboçar um sorriso de agradecimento, quando ouvi a voz de um outro cliente calmamente refastelado na cadeira de pesca principal:
_ Paraíso para mim é poder bater um recorde mundial por dia!Quem estava falando era meu cliente - aliás, mais amigo do que cliente - de nacionalidade americana, Diego Martinez, que, juntamente comigo no mês de outubro passado, tinha visitado o Rancho Xingu e adorado o local. Pudera, juntos tínhamos batido 8 recordes mundiais em 7 dias, além de pegar e soltar mais de 100 peixes. Mais para implicar com ele do que realmente falando sério, retorqui:

_Calma amigo! E os mosquitos? E os bancos duros daqueles barquinhos? Sem falar nas horas passadas sob o sol inclemente sem um toldo. Paraíso, para mim, é esse barco, com este conforto que só gente rica como vocês tem grana para pagar....
O colombiano fleumaticamente puxou o chapéu para cima dos olhos e fingiu que estava dormindo. E eu fiquei à mercê dos outros clientes, que queriam - porque queriam - saber o que tinha acontecido conosco no Xingu. Assim, perdi duas preciosas horas de sono, contando para eles, embasbacados, a nossa aventura no Rancho Xingu.
A HISTÓRIA DENTRO DA HISTÓRIA
Tudo tinha começado com um telefonema de. Ataualpa Catalan, proprietário do Rancho Xingu. Ele tinha lido algumas reportagens nossas no e-zine Rod and Line ( www.scotangling.co.uk/ap ) e gentilmente estava nos convidando para visitar o seu rancho. Se possível, ele queria que escrevêssemos sobre o local.

Confesso que o meu primeiro impulso foi recusar. Sou homem do mar, já
ficando meio velho e preguiçoso. Mosquitos, acampamentos, barcos de alumínio,
caranguejeiras, cobras e jacarés são coisas com que convivi muito
no passado, quando garoto secura, mas que, agora, acostumado com as mordomias
de minha lancha, não tinha a menor vontade de relembrar. Além
disso, peixes de rio são geralmente pequenos, brigam pouco, e minhas
experiências com os cozinheiros do interior sempre deixavam muito a desejar..
Isto sem falar que a temporada de pesca oceânica estava prestes a começar
e tínhamos ainda muito que fazer para deixar o barco e equipamentos de
pesca em boas condições para os campeonatos.
De qualquer forma , arranjei um tempo e entrei na Internet para analisar o site do Rancho Xingu (www.ranchoxingu.com.br). Ao ver as fotos dos grandes bagres de mais de 100 quilos, comecei a me animar. Mas o que me chamou mais a atenção foi a lista das diferentes espécies de peixes daquela região.
POSSIBILIDADE DE
BATER OS RECORDES

Logo tive uma idéia: consultando o livro dos recordes da IGFA (International Game Fishing Association), percebi que somente uma minoria dos peixes da área do Xingu constava do mesmo. Rapidamente fiz uma contas e deduzi que daria para facilmente abrir alguns novos recordes, tais como os do abotoado, jurupecen, corvina e do belo pacu prata. Outros recordes já existentes pareciam também fáceis de bater: cachorra facão, armau, bicuda, arraia, traíra e o indefectível piau.
Mais animado e resignado a sofrer os desconfortos do mato, convidei o Diego, gringo bom, pescador fanático, pau pra toda obra, apesar de alto executivo de várias multinacionais e nos mandamos para o Xingu.

OS APERTOS DA VIAGEM
Ao pegarmos um avião em Bauru, já comecei a me arrepender da viagem. Era um avião de 6 lugares, mas decolou com 7 passageiros. Minha preocupação começou a atingir níveis de alarme quando, 4 horas depois, notei que o Sol passava de bombordo para boreste constantemente. Sinal certo de que estávamos perdidos. Fui à cabine e... dito e feito! A visibilidade era muito pouca por causa das queimadas e, para o cúmulo do azar, o GPS tinha endoidado. Voltei para o meu banco e comentei com o Diego que iríamos aterrar na primeira pista de pouso que aparecesse, e lá tentaríamos reiniciar o GPS. Ele, ficou branco, e disse:
_ Na Colômbia, se alguém aterrizar em uma pista de pouso no meio do mato sem licença do dono, será provavelmente metralhado.Engoli em seco, e agradeci a Deus por minha terra ser o Brasil! Após aterrarmos e reinicializarmos o GPS, em seis minutos de vôo chegamos ao Rancho.

OS PRIMEIROS SUSTOS E A CISMA DE PESCADOR
Para relaxar antes do almoço, fomos tomar um banho na praia. Mal tínhamos caído na água, apareceu um grande jacaré. Corremos para o fundo da praia e encontramos uma carcaça de veado semi-comida por onça. Havia rastros por toda a parte. Meu amigo continuou correndo até o quarto e começou a arrumar as malas para voltar.
Eu ria às gargalhadas, pois esta sucessão de desventuras só poderia ser o início de uma grande pescaria. Isto é uma cisma que cultivo desde menino. Se existe uma coisa em que acredito, é: quando alguma coisa começa absurdamente mal, só pode terminar bem.
Para confirmar, antes do almoço não teve gin tônica, mas sobrou cerveja. A cozinheira tinha brigado com o marido e fugido. Mas as duas moças trazidas em cima da hora de Canarana, conseguiram produzir uma bóia muito boa . Depois de uma merecida sesta num quarto bem limpo, em cama confortável, Pablo estava mais calmo e finalmente fomos pescar lá pelas 15 horas.
A PESCARIA: UM FESTIVAL DE TROFÉUS

Em 17 minutos chegamos ao pesqueiro. E aí tudo mudou. Minha cisma estava
mais do que certa. Nunca vi tão grande concentração de
peixes em minha vida. Era só arremessar a artificial e o peixe batia.
Nos primeiros minutos pegamos uma bicuda de 4,200 quilos. O recorde era 4,230.
Ao ver a cara de desapontamento de meu parceiro, de gozação lhe
ofereci em silêncio uma chumbada de 50 gramas, que ele atirou na água
com um resmungo entre dentes: "No soy como vos otros..."
Logo em seguida pegamos uma cachorra de uns 10 quilos . O gringo já era todo sorriso. A nossa intenção era permanecer no Rancho somente 3 dias. Mas estava tão bom que desmarcamos todos os nossos compromissos e acabamos ficando uma semana.
Foram 8 os recordes batidos. Nunca ouvir falar de fato semelhante. O nome dos recordes? Não digo. Só quando a IGFA aprová-los. Mas, de fato, se existem vários paraísos de pesca, certamente um deles está neste rancho às margens do Xingu.
ROTEIRO

O Capitão Kdu Magalhães é o dono da Fishing in Rio, empresa especializada em pesca de alto mar. Viaja constantemente pelo mundo à procura de novos pesqueiros de peixes de bico, sua especialidade e paixão. Nesta categoria, já ganhou inúmeros campeonatos no Rio de Janeiro, Angra dos Reis, Fernando de Noronha e Rio Grande do Norte. Escreveu durante muito tempo nas seguintes revistas: Pesca Esportiva, Troféu Pesca e Pesca & Cia. Atualmente escreve no E sine Internacional "Rod and Line" www.scotangling.co.uk.
RANCHO XINGU

O Rancho Xingu fica localizado na Bacia Amazônica, Mato Grosso, no encontro dos rios Sete de Setembro e Kuluene. É deste encontro que se forma o rio Xingu. O município mais próximo é Canarana, MT, a 130 Km por estrada de terra do Rancho. Em outubro de 1999 fiz em 3 horas o trajeto sem problemas. A partir de Canarana, a estrada é toda asfaltada. As cidades seguintes, pela ordem, são: Água boa, Nova Xavantina (Rio das Mortes) e Barra do Garças (Rio Araguaia). De Bauru (SP) até o Rancho Xingu são 1430 km. De avião, a melhor combinação, ao meu ver, é alugar um táxi aéreo a partir de Goiânia. Um Cesna monomotor de quatro lugares me cobrou 1600 reais em outubro de 1999. Considerando que o piloto e a tralha ocuparam dois lugares, as passagens custaram realmente 800 reais por pessoa, para uma só perna da viagem. Outra opção é optar pelo avião Navajo do Rancho Xingu, cujo preço está incluído nos pacotes do Rancho. Para isto, consultem a administração do Rancho Xingu pelo telefone **14.223-5237 ou então visitem o site www.ranchoxingu.com.br
BICUDA

ROTEIRO
DICAS

Por mais secura que você seja, garanto que, em cerca de metade de seu tempo lá por aquelas bandas, deixará de prestar atenção em suas tralhas para ficar olhando coisas incríveis em sua volta. A anta nadando e depois subindo, correndo as margens do rio, e, na pressa, ficando entalada na trilha estreita demais para o seu corpanzil. Os pequenos veados galheiros atravessando o rio, ou correndo por suas margens como se fosse em um paddock. Os papagaios, maitacas e araras fazendo um esporro tão grande que não dá para ouvir mais nada. Capivaras imensas e tranqüilas ruminando nas margens em bando de 10 ou 20, enquanto, há uns 500 metros abaixo, um grande e velho macho pastava sozinho. A explicação do isolamento foi dada pelo guia: é que ele está velho e foi expulso pelos machos mais novos... Uns pássaros cor de rosa muito mais lindos que os flamingos da Flórida.
É importantíssimo que os pescadores máquinas fotográficas e câmeras de vídeo devidamente abastecidas de filmes e casssetes. Se tiverem a intenção de bater recordes, duas câmeras são imprescindíveis. Quase perdi um dos meus recordes porque a minha foto do peixe ficou ruim. Não fosse o meu companheiro ter tirado outra, com sua própria câmera, não teria sido possível homologá-lo.
Quanto ao vídeo, caso não o tivesse levado, teria perdido a oportunidade mais linda de minha vida ao documentar um bando de ariranhas estressadíssimas com a nossa presença por perto. Uma grande fêmea, ao tentar atirar um filhote para cima do barranco para escondê-lo de nós, bateu com a cauda no outro filhotinho que foi lançado ao rio. Desesperada, a lontra não sabia o que fazer. Se subia para a proteção do barranco com os outros filhotes ou voltava ao rio para resgatar o que a correnteza levava rio abaixo. Venceu o amor maternal, e lá foi ela atrás do desgarrado, ao mesmo tempo em que nos xingava com toda a força em "lontronês". Cenas maravilhosas que daqui a 20 anos ainda poderei repartir com os meus netos.
MELHORES PONTOS DE PESCA

Sem duvida nenhuma é no encontro das águas do rio Sete de Setembro e o Kuluene. Foi lá que peguei e soltei as maiores cachorras em toda a viagem. E era impressionante volta e meia recapturar uma solta na véspera, com as marcas ainda vermelhas dos anzóis. Lá também existe uma grande concentração de pacus, bicudas e cacharas. Foi com tristeza que observei um capataz de uma pousada local capturando, diariamente, dezenas deles para a venda posterior. Temo - e temo muito - que, se as três pousadas locais não se organizarem para incrementar o catch & release na região (conforme as sugestões que demos em nossa reuniões com os mesmos), dentro em breve os peixes da área serão exterminados como estão sendo os do Pantanal. Outro ponto bom é a curva do Xingu nas proximidades da Fazenda Sayonara, onde em cerca de meia hora pegamos vários armaus de grande porte. Lembro que estive lá em outubro do ano passado, época da vazante. Assim sendo, a ocorrência dos grandes bagres (filhotes e pintados) era muito pouca. Na próxima Semana Santa, estarei lá atrás dos mesmos e, se possível, de mais alguns recordes. Para pegar as deliciosas corvinas da região, um conselho: corriquem junto às praias com iscas de meia profundidade. Vão perder várias com certeza, mas as corvinonas comparecerão em massa.

MATERIAL UTILIZADO
Como pescador de água salgada, não me sinto à vontade para aconselhar ninguém sobre o material a levar. Pesquei somente com molinetes Penn 4500 e 2500. As linhas eram Ande de 20 e 12 libras, respectivamente. Minhas artificiais eram rapalas e colheres que uso para a pesca de enchovas. E é claro anzóis Mustad 7/0 e 5/0 Salwater, devidamente encastoados com steel coated wires, também da Mustad. Aposto que, neste ponto, vários de vocês estão rindo da pobreza de minhas tralhas. Imaginem então o que poderão fazer com estes lindos equipamentos que todos os pescadores sofisticados de água doce gostam de mostrar para os amigos nas manhãs de sábado quando se encontram para bater papo nas lojas de pesca de suas cidades. Se eu consegui cinco recordes mundiais, imaginem quantos os que estão neste momento rindo de mim, irão bater, ou já bateram. (Esta brincadeira é dedicada ao meu amigo Marcio Mattos Presidente da AEPIA que há três anos atrás me deixou maravilhado com suas carretilhas e iscas artificiais no baixo Kuluene)